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Batalha é a sua gente de ontem e de hoje – 161 anos de nossa Terra!

A minha cidade não se chama Lisboa, nem Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte, Roma, etc., não tem cheiro do mar e nem por ela passa um rio, mas ela tem nascentes, cachoeiras e olhos d’água despontando no inverno, como vagalumes na escuridão da noite!
Na minha cidade os poentes são de ouro sobre as planícies verdes, ou sufocantes na secura do verão e, só ela tem a luz do entardecer  enfeitando as paredes da Igreja Matriz, fazendo resplandecer o amarelo-ouro que parece querer abraçar o peregrino, que ao pôr do sol faz uma prece para continuar na teimosia da sobrevivência, por estas glebas onde o desamor e a injustiça teimam em ter a última palavra!
Quem não se lembra da Batalha, do tempo das roupas molhadas penduradas no varal num espetáculo de cores e o sol, quando chegava, penetrava-as delicadamente, carinhosamente, depois de vencida a neblina, o sereno da madrugada, que não amedrontara a lavadeira que com seu sabão de coco e sua trouxa na cabeça desafiara as madrugadas!
A minha cidade tinha tardes coloridas, coreto na praça, tinha o rivalismo de viúvas e solteironas, ora  passeando de um lado para o outro, onde exibiam suas saias de chita, rendas ou brocados,ora debruçadas nas suas janelas que escondiam mistérios. Sempre me questionei sobre o que havia para além daqueles pequenos quadrados que pareciam conter um mundo de histórias lá dentro, tão altivo e longínquo, como dizia Guimarães Rosa: “aí tem um mistério, que não sei qual é!”.
Batalha é a sua gente de ontem e de hoje. Batalha para os batalhenses é a maravilha que se estende pela cidade. Mesmo hoje repleta de lágrimas, sorrisos, desesperos, alegrias, é nela que se depositam sentimentos, mágoas, loucuras, ela é o confessionário de nossa gente que se perde na imensidão de um segredo, as luzes dão-lhe o brilho de um amor eterno, dão-lhe a magia que se esconde de dia, a beleza que lhe está destinada a morrer nos corações.  Enfim Batalha, tu és o lugar onde para mim começam as maravilhas e todas as angústias!
Na Batalha, do meu tempo de menino, as ruas cheiravam e nos seduziam os sentidos quando nos  embrenhávamos nelas, não mais querendo sair, porque eram únicas e magistrais, eram mistura de doce e pimenta-de-cheiro, temperando arroz torrado, lá das bandas do “Mimoso” que apetecia , que nos envolvia e que nos marcava a pele.
Hoje já adulto, visitar Batalha, mais que rever parentes e amigos, significa arredar as cortinas das janelas dantes fechadas, é fincar-se como uma estaca na frente dos antigos casarões da praça da matriz, palco de riquezas dos tempos da colonização, casarões que escondiam segredos, que escondiam volúpia, que escondiam nas suas largas portas e janelas a passagem de histórias de quem não tinha história, e de pessoas que não conheciam outra vila, nem outra vida para além daquela praça, para onde se abriam as janelas, tão largas e tão estreitas,  passagens entre o mundo real que lhes eram negadas porque satisfaziam desejos carnais, ruas  que mostravam a vida, mas que sonegavam a realidade.
Ah! Batalha de nossa mocidade, tramando namoros escondidos, nos tempos de semana santa, nos banhos de riachos, ou mesmo a alegria de ver renascer uma cidade num tempo de novena dedicada a um santo padroeiro; das noites em que eram percorridas a pé as casas de festas, onde se encontravam os “pés de valsa,” os lugares, onde se vivia no limite de uma madrugada forrozeira, ou da dança “colada”, nos tempo do “Cochico” onde havia momentos que mudavam vidas, onde nasciam amores para sempre.
Era tempo que se tomava café numa roda na “porta da rua”, um fim de tarde, histórias contadas à conta- gotas, um prolongamento para a noite, a animação de quem queria viver, onde celulares não existiam, uma noite que ganhava  motivos de celebração, um hino à amizade, a euforia de quem queria ser simplesmente feliz!
Amor, Batalha é uma cidade de Amor, sou apaixonado por esta Batalha, cujo nome é já um objetivo, ou mesmo um verbo, “batalhar”. Para mim, Batalha nestes 161 anos é história, mistério, cultura, amor, loucura, é uma miscelânea de ingredientes que caminham e se entranham em nós, para nunca saírem.
Se me perguntarem, o que é Batalha para mim?  Direi que é um Amor, não daqueles trágicos, mas daqueles que se vive uma vida inteira.
Desculpe-nos Batalha, pelos maus políticos que te governam, pelas pessoas que não te amam, que te exploram, que não valorizam tua cultura, tua gente, teus trabalhadores, profissionais, teus empreendedores que teimam em continuar com as portas abertas.
Que paradoxo Batalha, tanta água derramam os céus em teu chão, e tua gente sofrendo com falta d’água, pela ingerência dos recursos, quanta violência atualmente nas tuas noites, assaltos à mão armada nunca antes pensados, cresce o tráfico de drogas, tua juventude sem horizontes, idosos jogados às moscas, chegas aos 161 anos, com poucos motivos para festejar, mas tu és sertaneja, e o sertanejo como disse Euclides da Cunha, no livro Sertões, “é antes de tudo um forte”.
Os plenos parabéns, Batalha, serão dados num dia onde as famílias sejam tomadas como primeiríssimo bem da comunidade, garantindo a cada uma, casa, subsistência e possibilidade de gerar vida, educar filhos e cuidar dos idosos. Quando as nossas ruas e praças se tornarem, isso sim, casa de todos, no sentido das convivências interculturais que importa alcançar. Uma Batalha onde a reconstrução seja tomada como prioridade e o trabalho seja tomado como condição indispensável de realização humana e, assim mesmo proporcionado, digna e justamente exercido e recompensado.
Creio em dias melhores, em mais respeito pela tua gente, pela nossa história, cultura e vida a transcorrer em tuas terras, nosso melhor presente que podemos te dar é dizer: Amamos-te Batainha de açúcar! Parabéns nossa terra!
Pe. Leonardo de Sales.

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