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Saudades do Mestre!


Acredito que muito do que somos e sentimos, refletimos através dos sons que nos cercam. Se os sons a nossa volta forem bonitos, ficaremos bonitos por dentro. Mas se dentro da gente só houver feiúra, nem as mais belas melodias nos agradarão. Mestre Quincas, sabia dessa verdade, e logo descobriu na música uma arte e fascinado pela beleza, espancou por onde passou a feiura, fazendo nascer de seu talento belas melodias, que mesmo com sua morte, não foi capaz de silenciar seu saxofone! 

Hoje reunidos em torno de um coreto, e não há escolha mais feliz, para este encontro, fazemos memória deste homem simples, que fez da música uma paixão, e foi capaz de transmitir essa paixão não só pelo sangue de seus descendentes, mas também exercendo atração, tal era seu carisma que contagiava as pessoas, logo ele se tornou uma referência necessária quando a história recordar os músicos batalhenses. 

Nós somos músicas que dançam na vida! No mestre Quincas a música que saia de sua alma para o mundo ouvir, era também música do mundo que lhe adentrava a alma. Cedo ele descobriu que podemos interpretar a vida como uma imensa orquestra musical, cujo regente somos nós mesmos. 

Em se tratando dos intérpretes, pois Quinca também o era, de excelente qualidade, não com a voz, mas, na captação dos sons de notas musicais que ele traduzia em valsas, sambas e dobrados é geralmente o virtuosismo que se interpõe entre o ouvinte e a música. Assim, como o compositor gênio que foi, um virtuoso em seu instrumento ele pôde chegar a adquirir a mesma aura sobre-humana de encantar os corações e as almas batalhenses. 

Estando ele nessa condição elevada, pareciam acuarem-se todos os mortais comuns na única posição apropriada ao contato com divindades: a da veneração cega – e surda. Tem-se, então, uma unanimidade em Quincas: era um excelente músico. E, fora deste contexto, a música se transforma em mero pretexto para o exibicionismo como vemos hoje em tantos “sucessos” que os dias se encarregam de apresar o seu esquecimento. 

Hoje 13 de julho quando nos recordamos dessa figura impar na nossa cultura local, tão rica e ao mesmo tempo tão desprezada pelos poderes públicos, sua figura de novo se desenha à nossa frente, como não o recordar nos leilões aqui realizados com a sua liderança a reger a banda, às vezes atrapalhado pelo cheiro de um assado, ou mesmo aguçado em seu apetite por um doce de mangaba, lá estava o Mestre inseparável de sue saxofone. 

Qual Santo Antônio com o menino ao colo, eis o Quinca agarrado ao colo acarinhando seu instrumento musical, como que a nos dizer que a vida é uma música com seus intervalos e altos e baixos! Cada músico desenvolve a personalidade de acordo com o instrumento ou do som que a ele está ligado com frequência. Cada pessoa, independente de ser músico ou não, tem o seu tom, que vibra quando entra em sintonia com ele. Daí a importância de se tocar/ouvir instrumentos diferentes para variar a sintonia com os sons á sua volta, o Mestre sabia disso seus rebentos todos de tudo, são quase multimúsicos! 

Consta que Otto Maria Carpeaux, um historiador da Música, teria proferido a interessante frase sobre a grandeza de Bach: “Mozart é O músico! Beethoven é O músico! Bach é A música!”. Que será que esta frase nos diz de Mestre Quinca? 

Naquele dia 13, uma sexta-feira, a energia corporal de Quincas esgotou-se. Foi vencida pelo TEMPO, entidade abstrata e quase inexistente que se revela, a cada passo, mais forte que qualquer coisa mundana. A morte tentou calar os seus pulmões, em vão, pois nesta memória que hoje fazemos queremos dizer que ela, a morte, não foi capaz de apagar de nossos corações valsas e dobrados, que o Mestre compôs, e cada geração há de se interessar, cultivar e visitar a sua obra. Só assim, certamente resistirá à dureza dos anos, e não esquecerá nem ele, nem sua música, como a de um Bach, de um Mozart ou de um Beethoven, tão mal compreendida como a de seus parceiros nesse seleto time dos gênios! 

Obrigado Mestre Quinca pela sua música, pelo seu jeito, pela sua enorme contribuição para a cultura batalhense! Ao redor deste coreto, celebramos não sua partida, mas a sua permanência entre nós, no sangue que corre nas veias musicais de nossos músicos, estão presentes as hemoglobinas do seu talento, da sua simplicidade e genialidade! 

 Um só dobrado queremos hoje escutar, aquele que vem do céu tocado pelo seu companheiro de anos, o saxofone, e cantado por ti: “vamos lá”! Que saudades Mestre! 

 Pe. Leonardo de Sales

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